É possível enviar flores ao céu?

 

Pai,

Eu entendi algumas coisas.

Venho aprendendo aos poucos com a tua falta e a minha saudade.

Entendi, por exemplo, porque você não parou um minuto sequer de tirar fotos naquele dia em que nós dois fomos à Embu das Artes, e eu fiquei brava com a nossa caminhada lenta – porque cada passo seu significava um registro daquele lugar. Talvez eu tenha mandado um WhatsApp pra mãe reclamando: “o pai tá pior que criança nessa cidade!!!”.

Mas eu entendi. Entendi o porquê do seu entusiasmo ao registrar tanta coisa e investigar cada detalhe, porque era assim que, mais tarde, alimentaríamos essa lembrança e os nossos momentos de descobertas a cada viagem de Harley-Davidson.Eu entendi porque, nesse mesmo dia, você entrou em um estúdio de tatuagem e quase fez uma, ali mesmo, sem avisar alguém ou escolher um desenho prévio. Talvez ninguém saiba, mas você quase tatuou as suas costas e passamos bons minutos considerando desenhos dos catálogos naquela sala pequena que fazia tatuagem e piercing.

Sim, eu entendi que você queria sentir-se VIVO e capaz de tornar realidade cada decisão que te cabia. Que pudesse mostrar que você era capaz de alcançar pequenos desejos, pequenas loucuras, pequenas vontades. Porque fazia sentido. E faz sentido.

Eu entendo porque você tinha o entusiasmo de tirar a motocicleta da garagem, talvez sem destino. E você passava horas em uma estrada sem esperar o que ia encontrar na cidade, ou mesmo no caminho, porque talvez a previsão do tempo fosse de chuva no fim da tarde – e tomar chuva em cima de uma motocicleta dói pra caramba – mas quem se importa?

Eu entendi que você queria simplesmente sair, independente dos fatores externos, porque você valorizava a sensação de liberdade e de paz que a estrada proporciona. Eu entendo que pilotar, para você, era entrar em conexão com algo muito mais interno e profundo do que uma simples atividade mecânica. E aquele vento no rosto é mesmo libertador.

Eu entendo porque você fazia tantos planos e falava sempre que “para morrer, basta estar vivo”. Você tinha consciência da fragilidade do ser humano, mas não deixava de acreditar em seus projetos e, quando você sonhava, ia muito alto. E talvez a mãe tenha dito algumas vezes: “o pai sonha muito”.

Mas eu entendi. Entendi que você teve foco para lutar pelos seus planos e era extremamente prático ao aproveitar cada momento e decisão. E entendo que talvez esse seu jeito tenha feito com que seus apenas 50 anos de vida tenham sido bem vividos com seu jeito lúdico, dramático, sério, focado, decidido, estratégico, matemático e muito artista.

Eu entendi algumas coisas.

Agradeço aos céus pela consciência, fé e amor que continua nos unindo.

E sigo aprendendo aos poucos com a tua falta e a minha saudade.

Para sempre sua companheira de estrada,

e pintora de desenhos da Turma da Mônica,

Pretinha