Ilustração de Laura Manfre

27 Janeiro de 2013
Sou o tipo de pessoa que ama analisar embalagens, capas de cadernos, livros e agendas, embrulhos de presentes e inclusive acho importante ter cuidado com a escolha da caixa tanto quanto a escolha do presente. Não que tudo seja uma questão de aparências, longe disso.
Talvez eu seja um pouco perfeccionista demais. E um tanto cuidadosa com a estética das coisas. Mas a verdade, é que estávamos prestes a descer do carro em uma baita chuva para atravessar um pontezinha improvisada feita de pedras (em volta, poças tão profundas de água e lama que mais pareciam pequenos lagos) para chegar ao restaurante.
Estávamos em onze, na praia. Havia chovido o dia todo. Garoa fina e constante intercalada com chuvas mais fortes e a insatisfação de não aproveitar a praia por completo. Também ventava.
Como tudo acaba em pizza, resolvemos sair à noite. ‘O lugar é rústico, mas é bom’, anunciou o primo da minha (melhor) amiga, que nos conduzia até lá. Estávamos eu, ela e sua família (que, de certa forma, já é considerada minha também). Treze anos de amizade.
Passado o susto da ponte de pedras e fachada mal acabada (ou melhor, ainda em reforma), mergulhamos num ambiente agradabilíssimo. Era bem tarde da noite e estava escuro, mas pude sentir o capricho daquele restaurante à luz de velas, de frente para o mar e com música ao vivo. A decoração era sim, rústica, mas muito charmosa. Mesas e cadeiras largas de madeira dividiam espaço com pranchas de surf e luminárias de juta (ou algo parecido). Na mesa, velas em vidros com areia e cardápios com pizzas de sabores e nomes bem pensados.
Passada a surpresa da primeira impressão visual, sentamos. Era tudo bem romantiquinho. Mas, ali, havia outros grupos grandes de amigos (e quem sabe familiares). Ufa! Éramos uma turma bem animada, tagarela e especialmente alta – no tom de voz, pelo menos isso não seria problema. Quis pedir algo simples e gostosinho, e não pensei em outra coisa senão água com gás.
Enquanto esperávamos nosso pedido, eu observava um casal (o único do restaurante, surpreendentemente) entre sorrisos e flashes. Na verdade um sorrisão, vindo deles, tirando fotos clicadas por eles mesmos. Pensei se estariam no começo do relacionamento.
Depois, me peguei balançando de um lado ao outro, com a minha amiga, no ritmo de uma música do Legião Urbana. ‘Os garçons daqui se vestem engraçado’, ouvi, da prima da minha amiga. Então virei do outro lado, em direção a ela, e mudei de assunto. Mas ela insistiu: ‘Ahh, já sei… Eles parecem o menino do pijama listrado!! Olha Carol, igualzinho!’. Gargalhei (e tive que concordar).
A noite seguia muito bem, era o clímax de um dia preguiçoso na praia. Soube que o restaurante havia inaugurado há pouco tempo, e por isso a fachada ainda estava em reforma. Acrescentei uma nota mentalmente: ‘lembrar-se de não julgar as coisas pela aparência’. OK.
Dali em diante, tivemos uma ótima noite. Pedimos que o cantor tocasse Djavan e nos distraímos com os detalhes da decoração, as velas na mesa, as ondas do mar chocando-se e permitindo serem reconhecidas por nós pela espuma branca (já que a escuridão lá fora era total) e por fim, a pizza.
Gosto quando a vida decide mudar o rumo só para me dizer ‘ei, não é bem assim’. Ao som de Djavan, melhor ainda. Que venham as surpresas e as descobertas pelo caminho. E o jeitinho delicado de aprender que nem tudo é só beleza e casca. Ou melhor, quase nada é.