A gente não pode parar de ter ideias, ela disse.

 

Primeiro, as instruções: você vai ver uma seringueira de cada lado da estrada, e essa é a primeira indicação. Depois, vai entrar na terceira porteira à esquerda. Chegamos. Estávamos em Camapuã, interior de Mato Grosso do Sul. Sentamos em uma dessas cadeiras. Era a propriedade da senhora Soila Rodrigues Ferreira Domingues, herdada pelos pais desde 1985. Fazenda Jalu.

Ela não mora lá, mas vai visitar de vez em quando e passa uma semana. Disse que às vezes aparece onça por lá. E os pássaros tomam conta das suas frutas (principalmente ponkan, quando é época). Seu neto tinha faltado da aula para passar o dia com ela. Não demorou muito, Soila serviu um café passado na hora para nós. Disse que tudo ali era simples, mas construído com muito suor.
Contou que, aos 70 anos, tem a sorte de ter uma experiência acumulada. E disse que graças a Deus vive uma época boa da sua vida. Perdeu o marido há 14 anos e aposentou depois de trabalhar 40.
Soila ficou sabendo que íamos fotografá-la, e disse que nem tinha dado tempo de passar um batonzinho. Perguntou se queríamos mais café. Na Jalu, esta propriedade em que estávamos, contou que possui 230 hectares de pastagem, para pecuária de corte e leiteira.
Depois de aposentada, quis fazer faculdade de Direito. No primeiro dia de aula, soube que seu professor havia sido alfabetizado por ela. Ao todo, possui 650 cabeças de gado. Eram mais, recentemente vendeu alguns. Nos próximos meses, vai trabalhar em um novo sistema para recuperar suas áreas de pastagem degradadas. A gente não pode parar de ter ideias, ela disse. Eu tô sonhando com isso. E dava para ver nos olhos claros dela que estava mesmo.

Contou que tinha plantado ipês de todas as cores pela fazenda. Disse que vai experimentar plantar três hectares de milho para silagem. Posou numa foto ao lado da roda do trator que foi de seu pai. Pouco antes de irmos embora, disse: quer mais café? Mas ela sabia que tínhamos que seguir viagem. Perguntei pra ela se aparecem muitas araras por ali. O funcionário que trabalha lá, disse: da vermelha e da azul! Falamos que infelizmente tínhamos pressa porque havia um longo caminho a percorrer pela estrada. Ela pediu que voltássemos.
Antes de entrarmos na caminhonete, Soila me disse que aquele lugar dava paz. E dava para ver nos olhos claros dela que estava certa. Por fim, fez um único pedido: vocês têm que voltar com mais folga. E prometeu servir almoço na próxima vez.

A vida é simples.