Ilustração de Paul Mirocha
28 de julho de 2014
Estava ofegante. Sentia a camada de sujeira sob a minha pele que, a cada minuto, parecia aumentar de espessura. No rosto, sobretudo. O suor juntava à oleosidade e, mesmo não vendo meu reflexo em um espelho, sabia que estava desgrenhada. Deplorável. Continuei a correr o mais rápido que pude.
Era como se fosse uma lembrança distante de uma história contada anos atrás, para gerações que hoje, achariam isso tudo o máximo. Mas não: eu estava vivendo cada detalhe e era aterrorizante. Naquela construção antiga, havia um refeitório no centro do terreno, com alguns dormitórios largos em torno. Estes cômodos eram cercados por uma série de salas e corredores dos mais variados tipos: pequenos, largos, suficientes para abrigar uma pessoa por vez ou ocupar uma sala de aula de 100 alunos. Numa visão aérea, daria para ver o que pra mim, àquela altura, tornava-se óbvio: era um labirinto em forma de caracol. 
É claro que, agora, muitas daquelas salas eram apenas escombros. E dava para ver o terror de algumas pessoas que circulavam, feito baratas tontas, a minha volta. Elas deviam pensar o mesmo de mim – isso quando não tentavam atirar na minha cabeça ou coração. Às vezes, miravam diretamente e… Algo acontecia. Um ruído. Muitos deles. Qualquer distração era o suficiente para que eu fugisse. Bastava um ruído para quem estivesse prestes a me acertar olhar ao redor e eu PUF!, me esquivava da morte.
Minha roupa estava em parte rasgada e me fazia sentir desprotegida, como se a situação toda já não fosse o bastante. Ainda não havia matado ninguém, mas sabia que até o final das próximas horas eu não teria escolha. Meus olhos arregalavam e todos os músculos doíam conforme eu contraía meu corpo em cantos estreitos atrás de escombros, do lado de corpos, entre os vãos das paredes. Na minha cintura, uma faca e uma corda. Só que eu não fazia ideia de como usá-las. Era uma negação no quesito sobrevivência, embora os vários corpos no chão não tivessem ganhado a minha companhia. Ainda.
Era frustrante. Tudo aquilo. Eu não lembrava como havia entrado naquela situação, mas nada do que ficou para trás importava agora: me puseram aqui. E expuseram tudo o de mais podre em mim. Eu era um desastre.
Ilustração de Lívia Caniato
De repente, um clarão na minha cara. ‘NÃO SIGA A LUZ’, uma voz imediata gritava lá dentro da mente. Mas eu realmente não estava morrendo. Não ainda. Era só uma sobrevivente dirigindo por entre as paredes, arrastando corpos e acabando com tudo o que estaria a sua frente que vinha na minha direção. O próximo alvo? Eu, certamente.
Estava ofegante. Continuei a correr o mais rápido que pude. Comecei a apalpar a minha cintura atrás da faca, tentando desvencilhá-la do cinto, mas tive medo de me machucar com a lâmina. Eu pensava demais, e agora não seria diferente. Um cara loiro surgiu. Tinha cara de Felipe (mas porque é que estava pensando no nome dele se eu estava prestes a morrer?). Vão me cercar! É agora!, pensei. Fechei os olhos num ato de desastrosa covardia. Não morri. Abri os dois olhos, temerosa, procurei álcool, fósforo, arma, qualquer coisa para me livrar da motorista maluca que ia me matar. O Felipe – ou Thiago, ou Marcos, quem é que vai saber? – tirou algo do bolso da calça e atirou em direção do carro. Um barulho ensurdecedor tomou conta do lugar todo. Fui atirada para longe.
Na próxima vez em que abri os olhos, estava no refeitório. Ouvia uns sussurros em inglês e não sabia se ainda tinha acordado ou estava mesmo surtando de vez. Havia algumas enfermeiras e outras velhinhas americanas oferecendo comida aos sobreviventes. A minha cabeça doía, os ouvidos estavam sensíveis como folhas de papel de seda que a minha tia usa para embrulhar bombons artesanais e eu não queria olhar no espelho tão cedo. Busquei, em vão, algum rosto conhecido. Ninguém. Duas velhinhas simpáticas aproximaram-se de mim, lamentando a perda da neta. De alguma forma, eu sabia quem era. A motorista que morrera por uma bomba. A bomba caseira que o Felipe jogou e a mesma que me salvou. Elas estenderam, por inocência e solidariedade, um cookie com pasta americana cor-de-rosa e granulado vermelho em formato de coração para mim. Sabia que não ia me cair bem, mas peguei mesmo assim. Tinha que ser bom o suficiente pra me manter de pé. De repente, tive um minuto de paz. Encarei um granulado em formato de coração destroçado e me perguntei: o que viria agora?
***
Abri os olhos, puxei o cobertor de lado e fui escovar os dentes. PI-PI-PI-PI, o despertador ainda martelava na cabeça. Ou será que era o sonho?
[Um breve blábláblá depois da crônica] Quem nunca sonhou com bolhas de chiclete gigantes, máquinas destrutivas e unicórnios – se bobear, tudo na mesma noite – não sabe como é incrível e satisfatório o ato de acordar após uma noite turbulenta. A crônica acima, o último sonho mais nonsense que tive dos últimos tempos, foi um registro de tudo o que aconteceu enquanto meus olhos estavam fechados e eu estava – seguramente – na minha cama.