ainda que sozinha, sempre perto
ainda que longe, sempre junto
ainda que triste, sempre ancorada
 
20 de julho 
Dia do amigo // Dia Internacional da Amizade
Vamos combinar assim: talvez a gente não consiga, hoje, comemorar do jeito que gostaríamos. Passaram-se anos até que eu conseguisse olhar por esse ângulo (o de conseguir não fazer as coisas na hora em que as pessoas acham apropriado). ‘Mas tá todo mundo fazendo!’. Como é que a gente pode competir contra a maré? Andei me acostumando, e você sabe (e me entende também, eu espero).
Tá difícil segurar esse barco. Olhando assim, o horizonte, a calmaria do azul me faz sentir o equilíbrio que há muito tenho buscado. Mas é que às vezes sou fraca. Não consigo me manter sã o trajeto todo: o vento forte me cerca. E não sei se consigo continuar.
Já pensou se parássemos aqui? Acho que você teria um pouco de medo — do desconhecido — e pensaria em continuar sem rumo, ainda que me deixasse. E se eu insistisse em lançar a âncora aqui mesmo, no meio do caminho?
Se estiver difícil continuar, e eu não conseguir esperar o ancoradouro, podemos parar bem aqui onde estamos? É seguro o bastante para você? Eu seria segura o bastante para você vencer seus suas incertezas?
Talvez não (e eu entendo. Entendo mesmo. Antes eu não entendia). Algumas coisas não cabem a mim decidir. Somos dois. E se você quisesse seguir viagem — ainda que num bote salva vidas, teríamos de nos separar bem aqui, onde estamos, porque eu não conseguiria continuar. Ultrapassamos meu ritmo. Talvez não o seu.
Você está comigo, eu sei, mesmo eu tendo passado por algumas ondas sozinha. Nós já fizemos isso antes (isso de nos separar). A solidão nunca foi meu problema. Você sabe, né? Eu posso seguir daqui pra frente — e acho que você também — e a gente se encontra na próxima ilha.
Não acho que iremos (de fato) nos separar, porque estamos habituados a seguir nossos caminhos, ainda que o mapa aponte direções diferentes. E talvez hoje não possamos comemorar do jeito que gostaríamos — juntos, felizes, pacíficos. Talvez estejamos turbulentos demais, procurando a ilha, o norte e o rumo.
Mas estamos ancorados.
Sempre ancorados (em nós).
Dedicatória
•••
aos marinheiros e capitães:
aos meus amigos que estão perto
longe
em outros mundos, ilhas, marés,
sintonias
estão nas minhas orações baixinhas
me guiam em tempestades
me guiam pelas estrelas
me guiam enquanto tentam guiar-se
me deixam escolher meu destino
me deixam seguir viagem
me deixam tomar a direção
mas nunca me deixam
meu obrigada.
Nota sobre a amizade
•••
A vida tratou de colocar cada um em seu devido lugar, direcionando os ventos às escolhas que felizmente fizemos (a carreira e as paixões) e às tribulações que infelizmente encontramos (as lutas diárias contra a maré). Tivemos de abandorar o plano inicial, traçar outro caminho no mapa e enfrentar algumas tempestades (às vezes sozinhos). Mas como ‘homem nenhum é uma ilha’, sempre voltamos. Voltamos porque conhecemos os nossos pesos, e ainda assim conseguimos aliviar os dos nossos pares. Somos capitães de nós mesmos e deles: dos amigos que nos guiam pelos mares. Que reconhecem nossas conquistas. Que esperam, na próxima ilha, o momento de nos encontrar novamente e celebrar, do jeito que gostaríamos, todos os ventos favoráveis que nos trouxe até lá: o momento de estarmos juntos mais uma vez.