Às sutilezas que nos ensinam a ser mais gratos e fortes, apesar dos lutos, das perdas & de todo o resto

 

Eu guardo numa caixa que fica debaixo de uma gaveta do meu guarda-roupa totalmente desorganizado. Às vezes tiro, olho, me conecto em algumas lembranças e guardo de novo. Fico um tempo sem entrar em contato, até deixar que o tempo passe e eu precise repetir o ciclo.

Tô falando da aliança da minha avó Lourdes, dourada e fininha, bem discreta, deixada a mim quando ela partiu. A aliança delicada encaixa perfeitamente em um dedo anelar fino como o dela, como o da minha mãe e como o meu. Uma geração de dedos finos e gostos discretos.

Minha avó partiu repentinamente. Nunca me disse sobre o desejo de deixar o objeto comigo. Depois que ela se foi, soube pela minha prima que um dia ela havia a puxado num canto e dado as orientações. A aliança seria minha. Não me explicou o porquê, mas talvez nem precisasse.

Minha avó sempre quis partir antes do meu avô, e meu avô sempre quis partir antes da minha avó. Um não queria ficar sem o outro. Um não queria imaginar viver sem o outro. Acho que cresci cercada de poesias implícitas nas relações dos meus familiares e nas simplicidades de gestos misteriosos e marcantes. Minha avó me passou a definição de amor dela durante todo o tempo que convivemos juntas – em seus gestos, em sua calma, na tranquilidade e leveza dos bordados, das receitas e do acolhimento sempre presente. E no final de sua história aqui, não deixou de eternizar o seu bem mais precioso, o amor.

Feliz dia do amor mais puro, avó Lourdes.

Feliz dia dos avós!