cup-with-heart-bubbles*antes de mais nada, ‘espresso’ em referência ao original espresso Italiano – agora sim: a todos os ‘espressos’ que vieram com umas reflexões doidas (mas necessárias) e um pouco de chantilly

 

Antes de conhecê-la, Victória não tomava café. Talvez um chá depois do almoço, não tenho certeza. Mas café não, nunca café. Depois de acordada, Victória também não tomava café. Não precisava. Nem com leite?, você pergunta. Com leite piorou. Se Victória não tomava café, muito menos café com leite (acho que ela nunca foi meio termo). E continua não tomando (se é que você pensou que ela estivesse).

Eu não sei como começou (mas talvez eu devesse ter notado). Acho que era mais ou menos assim: amiga, vou ali pegar um café (às vezes eu pegava suco detox), vem comigo? e ela ia. Acho que era mais ou menos entre um estresse e outro, entre um choro entalado e uma vontade de desabar, entre o desabafo de uma decepção e o segredo de um estresse (mas tinham reflexões boas, também – senão fica parecendo que a gente tava numa maré de azar).

Acho que ela se acostumou, feito adaptação animal em um novo habitat. Mentira. Não era, assim, um mundo completamente novo. Nem trouxe mudanças tão significativas de rota: passamos a frequentar mais aquele lugar – em que servia um espresso com chantilly e nos tirava umas doses de peso das costas.

Antes da Victória, eu (geralmente) tomava uns cafés sozinha (mais ou menos: quase sempre acompanhada de um livro) e gostava de observar pessoas que tomavam cafés sozinhas. E esquecia do tempo (ruim). Às vezes pensava, como é que uma pessoa não gosta de café? até conhecer Victória, que não dava moral. Achei estranho, mas cada um na sua. Ela me acompanhava (já era alguma coisa) e eu passava a observar que eu (indiretamente) usava o café para pensar mais sobre a vida.

(Acho que) podemos concordar que não teve um dia especial – como quem termina um namoro ruim ou passa no vestibular pra estudar Medicina – mas o fato é que Victória passou a tomar café (e algumas manias dos outros que a gente forma – ou participa na formação, dão orgulho). Dia desses, pedimos a conta num restaurante e Victória logo perguntou por um cafezinho, num gesto automático (e eu me dei conta de que aquilo era mesmo real).

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Mas por que é que eu preciso saber da Victória?, você diz. E eu acho que no fundo tô enrolando (até porque nunca fui muito prática mesmo) pra dizer que é louca essa coisa de transferência, sabe? Eu fico aqui achando que a vida tem que seguir o seu caminho por conta das pessoas que encontramos. Entre os obstáculos, as pessoas e suas manias de tomar café (ou de qualquer outra coisa), nos fazem pensar em continuar aquela trilha (mas) numa outra direção (que nunca teria sido possível se não encontrássemos as pessoas e suas manias).

Então fica mais ou menos assim: eu (geralmente) tomava café sozinha, agora tomo com a Victória, e a vida mudou muito porque uma pessoa e uma mania fizeram com que outras perspectivas mudassem e isso não foi a solução de todos os problemas, mas trouxe uns assuntos novos, umas ideias doidas e muita gratidão por tanta coisa.

(algumas pessoas chamam de amizade).

Victória não toma café com leite (acho que ela nunca foi meio termo). E continua não tomando (se é que você pensou que ela estivesse). Mas toma café – vários espressos. Quase como um status incorporado. ‘Victória começou a tomar café há uns meses’, diriam as lembranças do Facebook. E eu acho bonito esse negócio de amizade em que a gente pega um pouco do outro e as manias vêm junto. A cafeína, no caso (mas outras coisas também). As expressões têm umas formas bonitas de chegar até nós. Assim como os espressos. Acho que, no fim, nossos papos passaram a ser muito mais longos do que os nossos três goles de café (quase) diários.

 

Feliz Dia do Espresso, Victória.