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Temo somente uma coisa: não ser digno do meu tormento. (Dostoiévski)

2015 foi intenso e desafiador. Para mim, mais do que qualquer outro ano. O que resultou, é claro, em muitos momentos bons e outros ruins. E, apesar de o saldo ter ficado negativo, eu não poderia deixar de ser (muito) grata por tanto aprendizado. Aqui, separei algumas das lições do ano passado para carregar de agora em diante.

1. Grandes transformações começam gradualmente.

Na realidade, toda mudança é gradual. Mas, às vezes, ficamos com a sensação de que a velocidade, maior do que a nossa percepção sobre as coisas, faz com que alguns acontecimentos sejam ‘do nada’. Apenas depois de algum tempo – analisando mais friamente a situação – conseguimos estabelecer relações e sentidos possíveis sobre o porquê dos fatos. Olhando com mais cuidado, quase tudo tem uma razão de ser. Isso diz respeito tanto ao que nos acontece, quanto às mudanças que ansiamos para nós. Portanto, vale a pena atentar-se às sutilezas. Transformações estão intimamente relacionadas à obervação e estratégia.O que eu aprendi no pior ano da minha vida - ensinamentos de 2015 (1)

2. Não existe dor ‘pequena’.

Você já experimentou a sensação de dividir algum problema pessoal e ouvir (das pessoas) que os problemas delas são maiores (ou menores) que os seus? Eu já. Algumas vezes. Minhas primeiras reações se resumiam a provar que minha dor era realmente grande. Depois de um tempo, entretanto, comecei a me atentar mais às dores alheias. E me envergonhei, observando as atitudes do passado, porque não se trata de uma disputa (‘Qual dor é maior?’). Se te incomoda, o seu problema (portanto, a sua dor) é digno de ser resolvido, enfrentado e, em muitos casos, compartilhado. Em 2015 eu dividi muita dor, mas também recebi dores dos outros.

3. O seu grau de envolvimento com uma coisa define o quanto você realmente a deseja.

Em um trabalho, projeto ou algo semelhante, geralmente há dois tipos de pessoas: as que se dizem interessadas e as que nem precisam dizer nada (pois se vê nos olhos). Querer é muito pouco. É preciso mergulhar e estar sujeito a todo tipo de imprevisto. Parece muito óbvio (ou simples), mas esse ato demanda muita coragem. Ainda mais quando, em grupo, somos testados pela falta de disposição, interesse e vontade alheia – ou mesmo pelo fato de que as pessoas têm uma maneira totalmente diferente de lidar com as mesmas coisas que nós e elas não necessariamente estão erradas por isso. Às vezes, nós mesmos estamos errados. De qualquer forma, o resultado acaba dizendo quem está mergulhado no projeto e quem simplesmente boia.O que eu aprendi no pior ano da minha vida - ensinamentos de 2015 (2)

4. Ninguém vence o mundo sozinho.

Eu sempre achei maravilhoso ver exemplo de pessoas que, sozinhas, desenvolviam projetos incríveis, conquitavam prêmios e posições, sendo muito bem sucedidas e felizes. E eu acabava excluindo todo o resto. Eu excluía as entrelinhas: as pessoas que deram o suporte, as pessoas que foram inspirações, as famílias e os amigos que acompanharam e acreditaram nesse projetos. Eu excluía a visão de que, por trás de pessoas incríveis, havia muitas outras. E descobri porque eu dependi de muitas pessoas para chegar até 2016. Eu me sucumbi às minhas próprias fraquezas, em 2015, para descobrir que eu precisava de muitas pessoas. E aprendi que isso é normal: precisamos uns dos outros. Aprendemos infinitamente mais com todas as pessoas incríveis a nossa volta.

5. Gosto da pessoa que estou me tornando, mas há muito mais o que mudar (e melhorar).

O que estou fazendo para atingir os meus objetivos? Para onde estou indo (e onde pretendo chegar)? O que eu espero de mim mesma? Questionar-me tornou um hábito bastante frequente em 2015. Em parte, porque algumas situações da lista dos ‘acontecimentos ruins de 2015’ exigiram uma reação rápida (da minha parte) para conseguir seguir em frente (sem prejudicar diferentes projetos e áreas da minha vida). Isso fez com que eu mudasse muito, concluindo o inevitável: há muito mais a ser melhorado.
O que eu aprendi no pior ano da minha vida - ensinamentos de 2015 (3)

6. Tudo vale a pena, se a alma não é pequena.

Uma das recordações mais fortes que tenho do ensino fundamental são as aulas de português. Na quarta série, aprendi ‘Mar Português’, de Fernando Pessoa. Na época, o decorei. Com o tempo, acabei esquecendo a ordem dos versos, mas dois deles nunca me falharam a memória:

Valeu a pena? Tudo vale a pena

Se a alma não é pequena.

Eu lembro de ter repetido essas palavras durante anos para os meus pais, conhecidos e familiares em situações diferentes. Recentemente, eu comia cachorro-quente com a minha prima que mora na Austrália e veio passar o fim de ano no Brasil e, em algum momento, ela as pronunciou: tudo vale a pena, se a alma não é pequena. Instantaneamente, minha mãe exclamou ‘Fernando Pessoa’ por tanto me ouvir pronunciá-las. Isso me marcou pelo fato de que, mesmo tendo passado uma das dores mais profundas há poucos dias (a morte do meu pai), lembrávamos dos acontecimentos passados com leveza e já fazíamos planos para o futuro. O ‘tudo vale a pena’ nada mais é do que uma percepção da preciosidade da vida. E, enquanto a nossa alma pulsar vontade, sonho e energia, somos responsáveis por tornar a vida incrível. 

Quais foram seus principais ensinamentos de 2015?