Ilustração de Carole Wilmet
22 de agosto de 2013
Hoje o céu fez um pacto com as nuvens, e demorou a aparecer. Ficou tímido, na dele, feito moleque levado depois de ser pego cometendo alguma travessura. O céu. Essa imensidão que trabalha todos os dias. Sem folga, feriado, ou tampouco fins de semana. O mesmo céu que ilumina, molha, abraça, assusta, surpreende, revela, colore.
O céu demorou a aparecer. Fez pose, cena, ensaio e ficou ali, em segundo plano. As nuvens se uniram numa espécie de quebra-cabeça, mas não foram suficientes para tampar o sol. E o céu? O céu ficou ali, escondido. Bandido, levado, malandro. Comeu quieto e saiu à francesa. Um penetra na própria festa, será possível?
Era sete e meia, e eu estava a caminho da faculdade. Então vi um horizonte iluminado. Pequenos feixes de luz que passavam por fendas de nuvens unidas, que por sua vez cobriam o céu. Um céu encoberto. Um céu cansado de ser céu. De ser seu. De ser.
Afinal, o que é um céu? Espaço infinito, acima da terra. Abrigo e morada das estrelas. Abrigo e morada de tantos sonhos, desejos e planos. Quem nunca ergueu as mãos ao céu? Quem nunca implorou um pedido, suplicou uma pessoa, quem nunca desejou um milagre diante daquela imensidão azul? Quem nunca sentiu alegria, recomeço e esperança ao observar aquele céu de ano novo? Iluminado, colorido, carnavalesco. 
Eu sou movida a céu, e faço dele o meu dono. Abro as janelas diariamente, porque preciso dele. Não importa a cor, o vento, o cheiro. Preciso sentir o céu me abraçar. Importa a imensidão e nada mais. Importa a paz, importa a calmaria. Importa o unicórnio que eu vejo nas nuvens, e o laranja que anuncia o fim da tarde. Mas também importa o preto, o anil, e importa o céu encoberto. 
Hoje o céu fez um pacto com as nuvens, e se escondeu de mim. Ganhou tons de cinza, ameaçou a chover, apareceu no horário de almoço como quem se entrega a um novo amor, e depois tornou a fugir… Feito namorado ciumento, indeciso, indefeso. Feito brincadeira de criança.
Nesse esconde-esconde da vida, me senti mais exposta a ele. Assim, na contramão. Ei céu, não deu certo! Continuo te vendo, porque continuo sensível aos seus encantos. Sou fraca, sou fiel, sou sua. Escancarei a janela, e deixei anoitecer. Deixei que anoitecesse para comprovar que o dia encoberto se tornaria uma noite encoberta. 
Sai de casa, olhei ao alto. Arregalei os círculos castanhos, e minhas pupilas devem ter ficado fechadas, porque quase não havia luz. Por entre as nuvens, vi um céu azul. Não era muito tarde, e embora estivesse escuro, o azul ainda estava ali. Nitidamente. Ainda que as nuvens fossem boas cúmplices. Ainda que o céu só quisesse um descanso, um sossego, uma pausa à loucura ou um relax. 
Hoje o céu fez um pacto com as nuvens, e eu fiz um pacto com o céu. Pedi você, pedi minha paz, minha sanidade e uma casinha bonita. Construí uma pequena teia de sonhos e fui pedindo tudo ao céu que, distraído, estava lá, eu sei. Por entre as nuvens, tempestades e ventania o céu está lá, e está comigo. Rosa, azul, amarelo, cinza ou encoberto. Ele está sempre lá.