waterEu tenho medo que a vida, para mim, seja um lago a qual eu nunca consiga mergulhar

lake_illustration_by_tallychyck

Tallychyck

Parei às margens de um lago como quem teme a profundidade de águas turvas, as quais não se vê o fundo.

Parei às margens de um receio ensaiado que me impedia de praticar as minhas ideias, mas também não me deixava esquecê-las.

Parei às margens das ilusões que fantasiei sobre meus sonhos, os quais desenhava diariamente.

Parei às margens de minha ansiedade demasiada ao (tentar) prever o futuro focando menos no agora, ao esquematizar soluções possíveis para todos os ‘e se..?’ da minha mente.

Parei às margens do medo vindo dos sustos que a vida me trouxe ao tirar pessoas e oportunidades do meu caminho.

Parei às margens de uma fé trêmula que em primeira instância parecia forte, quando na verdade precisava ser (muito) mais alimentada.

Parei às margens da prepotência própria, ansiando justiça quando eu mesma não sabia me julgar ou tampouco condenar-me pelas falhas que rondam as minhas ações e pensamentos.

Parei às margens das felicidades que cruzaram o meu caminho e as quais temi serem passageiras demais e, por isso mesmo, trazerem alguma dor posterior por não ficarem aqui comigo.

Parei às margens… E ali mesmo fiquei.

Em todos os aspectos, tive medo de sair das bordas, e confesso: queria viver às margens para não me afogar, mas também ansiava pelas descobertas que só quem se atreve a mergulhar é capaz de dizer e sentir.

Essa proteção, de viver sempre às margens, não me livrou de acidentes ou obstáculos que também podiam ter acontecido caso eu estivesse dentro das águas.

Ainda que buscava a proteção não entrando em contato, fui exposta às consequências de estar sempre às margens e descobri: não há escapatória contra os riscos que nos rondam.

Mas, ao contrário do que esperava, há um risco ainda maior: o de viver sempre às margens.