[Então, por que é que todo mundo acha que é o fim do mundo eu não falar? Talvez não queira me autoincriminar. Talvez não goste do som da minha voz. Talvez não tenha nada a dizer. -página 181]
Título: Fale!
Autora: Laurie Halse Anderson
Editora: Valentina
Número de páginas: 248
Classificação pessoal: ♥♥♥♥♥ (excelente)
Assuntos abordados: depressão, bulling, violência sexual, timidez, problemas de socialização, problemas familiares.
Ideal para ler… Em momentos de reflexão, quando estiver com vontade de ler algo mais sério e também com tempo para perceber as nuances, os pensamentos, as lições de vida, as metáforas e detalhes por entre as páginas.
‘Fale sobre você… Queremos saber o que tem a dizer’. O que para muitos deveria ser um discurso amigável, às pessoas como Melinda nem sempre acaba ajudando. ‘Sobrevivente’ do colegial – entre cheerleaders, novidades, hormônios, grupos e panelinhas – a estudante do colégio Merryweather vive às sombras dos colegas de turma (e pior: dos seus veteranos). Entrei no ensino médio com o corte de cabelo errado, as roupas erradas, a atitude errada. E não tenho ninguém com quem possa me sentar. Sou excluída. (página 16) 
Nem sempre foi assim. A ‘crise de sociabilidade’ de Melinda tem um motivo maior, guardado a sete chaves, que acaba se tonando o mistério da narrativa. Será que pode ler os pensamentos escondidos ali? E se pode, o que vai fazer? Chamar a polícia? Me mandar para um hospício? É o que eu quero que faça? Eu só queria dormir. O intuito de não conversar sobre aquilo, de silenciar a lembrança, é fazer com que ela vá embora. (página 100) Durante as férias, uma festa entre os alunos do colégio Merryweather mudou o rumo da vida da garota. Alguma atitude dela, nesse evento, causou bullling, indiferença e exclusão… E, para agravar a situação, sempre encontram maneiras de perturbá-la (já que as pessoas que estavam lá ‘esbarram’ com ela todos os dias, nos corredores, intervalos de aula, dentro da sala e horário do almoço). Você não entende, responde uma vozinha na minha mente. Pena que ela não pode ouvir. Minha garganta começa a apertar e fechar, como se duas mãos com unhas pintadas de preto estivessem agarrando a minha faringe. Eu tinha feito um megaesforço para me esquecer de cada segundo daquela maldita festa, e cá estou eu, no meio de uma galera hostil, que me odeia por causa do que eu tive que fazer. (página 42) 
Para entender o desenvolvimento e a personalidade de Melinda, é preciso analisar alguns personagens da história: um lado que acentua seus problemas – os pais, que não dão suporte necessário A minha família tem um esquema interessante. A gente se comunica por meio de bilhetes no balcão da cozinha. Eu anoto quando preciso de material escolar ou de uma carona até o shopping. (página 28) e o outro lado que atenua as dificuldades que enfrenta – o professor de artes – que, através de suas aulas, contribuiu para o crescimento (psicológico) da estudante. Ele está curvado sobre um pote girando, as mãos avermelhadas, por causa da argila. – Bem-vindos à única aula que vai ensiná-los a sobreviver – diz o professor. – Bem-vindos à Arte. (página 23) 
Em linguagem extremamente delicada, a personagem nos envolve em uma narrativa misteriosa (com uma pitada de drama e melancolia). O livro não é de todo triste, porque ela tem um tom irônico em sua fala, com observações detalhistas, engraçadas ou fofas – como: [sorrindo com a boca, mas não com os olhos]. (página 126) ou Eu curto demais cheeseburger para ser modelo. A Heather parou de comer, reclamando da retenção de líquido. Devia se preocupar mais com a retenção de cérebro, do jeito que a sua dieta rígida está consumindo sua massa encefálica. (página 101) 
A leitura, se por um lado é rápida – fluida – porque os capítulos têm uma série de subtítulos que dividem bem os momentos, por outro lado toma tempo, já que a narrativa é ‘parada’ – sem aventuras ou pontos de ação. O mistério que nos prende é, portanto, um fato sensível e emocional. Fale! ainda conta com uma parte extra, no final do livro (sem falar na introdução emocionante…), com discussões e reflexões da autora acerca do tema, bem como uma entrevista sobre essa publicação (nos levando a entender o processo por trás das páginas!). Eu gostaria de pensar que, em uma pequena escala, Fale! os está ajudando a encontrar suas vozes. Mas esta obra é só um instrumento. Os verdadeiros heróis e heroínas são os que olharam para dentro de si – para além do medo, da vergonha, da depressão e da raiva – e criaram CORAGEM para contar as suas histórias. Tenho o mais profundo respeito por elas. (Nota da autora, página 5) Fale! é uma experiência delicada e um convite à descoberta de todas as vozes que estão presas dentro de nós e almejam (ou precisam) sair. ♥
Vocês gostariam de ter voz para exteriorizar ou compartilhar algo que tenha acontecido?
Eu deveria, talvez, contar para alguém, simplesmente contar para alguém. Dar um basta nisso. Desabafar, soltar o verbo, por para fora o que aconteceu. (Laurie Halse Anderson, trecho do livro ‘Fale!’, página 119)