[Não estou certa de que este é o mundo ao qual pertenço. Não tenho certeza se quero acordar. -página 137]
Título: Se eu ficar
Autora: Gayle Forman
Editora: Novo Conceito
Número de páginas: 224
Classificação pessoal: ♥♥♥♥♥ (bom)
Assuntos abordados: música, escolhas/ decisões/ autoconhecimento, tribos e relação familiar, romance e drama
Ideal para ler… Com bastante tempo, sem pressa para notar as reflexões e compartilhar de todos os sentimentos da leitura envolvente.
Mia ainda está no chão, envolta pelo ar gelado do dia, mas consegue ouvir a música que tocava quando ainda estava tudo bem (e seu coração era definitivamente mais aquecido do que está agora). É que um típico ‘dia de neve’, como se costuma dizer na tradição norte-americana, acaba tomando proporções catastróficas. Você jamais esperaria que o rádio continuasse funcionando depois do que aconteceu. Mas ele continuou. O carro é destruído. (página 16) 
O dia gelado de fevereiro que cancelou as aulas do colégio e fez a família de Mia, uma garota de 17 anos, sair com o irmão mais novo e os pais para visitar amigos da família tornou-se verdadeiro drama quando um caminhão (a cem quilômetros por hora) vai de encontro ao carro em que estavam. O acidente – de alguma forma – ainda a deixa consciente de tudo o que acontece a sua volta, ainda que ela não consiga sentir nada. Começo a desviar a minha atenção e a me questionar sobre qual é o meu estado. Se não estou morta — e o monitor que acompanha os batimentos cardíacos continua apitando, então suponho que não morri —, mas não sou eu quem está no meu corpo, então, será que posso ir para outro lugar? (página 39)
*Como poderia ser a sensação de ter o instrumento na mão e não poder (ou conseguir) tocar a música?* Às vezes você faz escolhas na vida e outras, as escolhas vêm até você. Faz sentido para você? (página 159)
Mia – e sua família – é apaixonada por música. Violoncelista desde muito nova, é amante de música clássica: um contraste para os pais modernos e bem humorados, verdadeiros adoradores de punk-rock. Às vezes, eu realmente me sentia como se pertencesse a uma tribo diferente. Não era nem um pouco parecida com o meu pai extrovertido e irônico, nem com a minha mãe durona. E para completar, em vez de aprender a tocar guitarra, escolhi violoncelo. Porém, na minha família, saber tocar um instrumento era ainda mais importante do que o tipo de música que se tocava. (página 23) Muitos personagens da narrativa — incluindo o Adam, namorado roqueiro de Mia — têm uma estreita relação com a música, fazendo, dessa paixão, certo ‘impulso vital’.
Os conflitos de Mia, após o acidente, são contados no hospital. Em meio a esse ambiente — enfermeiras, aparelhos, cirurgias — conhecemos os personagens da narrativa (os que a visitam, principalmente) junto às memórias resgatadas pela personagem. A história é dividida por intervalos de horários nas 24 horas seguintes ao ocorrido. Mia conta tudo o que vê no hospital (presente), além das lembranças (passado) e sentimentos com relação a sua vida, seu estado e sua ‘luta’ para viver (futuro). A autora utiliza-se de uma série de reflexões, angústias e incertezas da Mia para trabalhar a questão do passado, presente e futuro na narrativa. Os três tempos são construídos de forma bem desenvolvida e dinâmica, cumprindo com muito êxito o papel de manter o mistério da história, organizar os acontecimentos, entender o emocional da personagem, talvez ajudá-la em suas inquietações. Será que ela conseguiria mesmo ficar? Talvez se eu tivesse mais prática, talvez se eu tivesse passado por outras situações difíceis em minha vida, estaria mais preparada para seguir adiante. (página 181)
O ritmo de leitura do ‘Se eu ficar’, pelo menos para mim, tornou-se um pouco cansativa e maçante. Talvez pela profundidade e dramatismo da história. Mesmo (eu) amante de dramas, senti certo ‘peso’ e acabei finalizando a leitura após várias pausas e intervalos (durante a semana), o que me desanimou quanto às expectativas iniciais. Quero quebrar as portas automáticas. Esmurrar o balcão das enfermeiras. Quero que tudo se acabe. Quero o meu fim. Não quero ficar aqui. Não quero este hospital. Não quero ficar neste estado suspenso em que posso ver as coisas acontecendo e tenho consciência do que estou sentindo, sem, de fato, sentir. (página 134) A edição do livro traz trecho exclusivo do livro da continuação, além de entrevistas realizadas pela autora com os atores Chloë Grace Moretz e Jamie Blackley (que ganharam os papéis principais na versão cinematográfica ‘Se eu ficar’).
O conjunto de instrumentos determina a música. Eles, assim como alguns elementos que possuímos diariamente — trabalho, escolhas, hobbies, estudos, atividades, personalidade, metas, sonhos decidem o que será tocado. Mais ou menos com a vida. Nós também temos alguns recursos; Tocamos bossa nova, rock ou axé. Gayle Forman, a autora, escolheu uma melodia (constantemente) lenta e suave. Se o livro fosse uma música, talvez arriscasse dizer ‘alguma da Lana Del Rey’, mas não vou restringi-lo a um cantor ou letra. ‘Se eu ficar’ é uma composição que deve ser tocada por cada um conforme a sua reflexão e o seu envolvimento com a narrativa.
Vocês curtem ler drama? Qual seu gênero musical preferido?
Não deveria me importar. Não deveria ter tentado tanto. Percebo agora que morrer é fácil. Viver é que é difícil. (Gayle Forman, trecho do livro ‘Se eu ficar’, página 145)