[Durmo e volto a sonhar. Sempre fui de sonhar muito. -página 19]
Título: Um, dois e já
Autora: Inés Bortagaray
Editora: Cosac Naify
Número de páginas: 96
Classificação pessoal: ♥♥♥♥♥ (muito bom)
Assuntos abordados: relacionamento entre irmãos, devaneios, viagens de carro, inocência.
Ideal para ler… Numa manhã (em 1h30 dá para terminá-lo), no horário de almoço ou intervalo entre atividades durante o dia, para relaxar e distrair no fim de semana.
Viagens de carro despertam alguma curiosidade em nós – ou, pelo menos, a obsessão por fazer algo até que o destino dê as caras. Paisagens pela janela misturam-se aos pensamentos mais variados. Vejo um poste que passa e vai embora até que vejo outro poste que passa e vai embora, mas nunca totalmente, porque na ida deixa um rastro. O rastro é o poste em movimento, o poste corrido, varrido, que continua numa fileira de postes-fantasmas de pé entre poste e poste verdadeiro. (página 7) 
É nesse clima de férias, estrada e distração que o livro ‘Um, dois e já’ ganha forma. Narrado no Uruguai, na época da Ditadura, uma família – pai, mãe, um filho e três filhas – viaja à praia. O caminho (que é, na verdade, o livro todo), ganha a voz de uma das filhas do meio, que não hesita em expor lembranças, assuntos da família, cor preferida, amizades, escola e amor. Coloco as minhas sandálias de plástico vermelhas e digo para minha irmã mais nova que ela também precisa se calçar e ela calça seus tênis azul-celeste. De repente, nessas férias eu arrumo um namorado, penso. (página 89)
Tudo se passa no carro. Especificamente, no banco de trás – o foco da história – onde os quatro irmãos dividem o espaço e revezam as janelas (posição de desejo!) de acordo com a quilometragem… Nós quatro somos irmãos. Agora estou na janela. Sorte a minha. Não acontece toda hora, porque sou a irmã do meio, e irmãs do meio nunca ficam nas janelas. Mas a viagem é longa e meus pais resolveram sortear os lugares pra gente não gritar nem incomodar, porque é perigoso. (página 10) O livro ainda conta com algumas referências culturais: artistas e produções como ‘O Balão Vermelho’, filme de 1956, são citados. É interessante o fato de a narrativa trabalhar com um contraponto: se por um lado não temos exatidão de nomes ou idades dos personagens, por outro, entramos no íntimo da mente da criança que narra a história: sem pudor ou censura! Conseguimos imaginar ou estar ‘livres’ para criar uma ideia desses detalhes que não são falados e isso faz com que – às vezes – essas exatidões pouco importem e – outras vezes – buscamos detalhes minuciosos para tentar desvendá-los.
A leitura é rápida, fluida, leve e inocente. Através da narração da personagem principal, somos convidados a participar de uma série de sensações que permeiam a sua mente – aromas, experiências, gostos, toques. Às vezes a viagem é tão comprida que me acostumo, e depois não quero chegar. Agora, por exemplo. Não quero mais chegar. Por mim, poderíamos ficar aqui para sempre, para sempre nesse banco de couro bege, com esse cheiro de pijama no ar e migalhas de empanada entre as pernas. (página 63) A descrição faz com que toda a atmosfera que nos é contada invada, também, o nosso ambiente (como se a gente tivesse fazendo parte daquilo: sentindo, tocando, cheirando com eles). A escrita mexe com nossos próprios sentidos. E é delicadamente tocante.
O que vocês costumam fazer durante uma viagem de carro (ônibus, van…)? Reparam nas paisagens da janela?
Amanhã, se não chover, e também se chover, vamos todos à praia, e então vou me aproximar da beira e entrar devagarinho. Sei que o frio da água vai doer, mas não importa. (Inés Bortagaray, trecho do livro ‘Um, dois e já’, página 74)