Título: A menina que roubava livros
Autor: Markus Zusak
Editora: Intrínseca
Número de páginas: 480
Classificação pessoal: ♥♥♥♥♥ (excelente leia agora!)
Todos nós sabemos: a vida é feita de momentos ruins. Bons, também, sem sombra de dúvida. Entretanto, os momentos de adversidades (que colocam nosso físico e emocional às situações e sentimentos extremos), nos marcam porque exigem mais de nós. Nos põe à prova. Como a maioria dos sofrimentos, esse começou com uma aparente felicidade. (página 76) Liesel Meminger é protagonista de ‘A menina que roubava livros’ e, assim como nós, vive momentos tristes. No começo do livro ela ainda não sabe, mas, dentre todas as dificuldades que irá enfrentar, as palavras se tornarão seu refúgio preferido, sendo capaz de salvá-la quando nada mais parecer ajudar ou mesmo fazer sentido. Liesel ainda não sabe, mas, mesmo antes de as guerras se tornarem verdadeiro pesadelo a ela e às pessoas em seu círculo de contato em Munique, colocando todos em risco, alguns furtos de livros serão a saída e o consolo para sua alma. No cômputo final, ela possuía quatorze livros, mas via sua história como predominantemente composta por dez deles. Desses dez, seis foram roubados, um apareceu na mesa da cozinha, dois foram feitos para ela por um judeu escondido e um foi entregue por uma tarde suave, vestida de amarelo. (página 31)
Liesel é filha de mãe comunista e, no início da narrativa, está prestes a conhecer sua nova família, um casal que a adota (ela e seu irmão) em troca de uma ‘mesada’. A caminho de Munique, onde (mais tarde) será entregue a Rosa e Hans Hubermann (seus pais de criação), Liesel vê seu irmão morrer subitamente no trem, do seu lado. Com um olho aberto, outro ainda no sonho, a roubadora de livros —também conhecida como Liesel Meminger — pôde ver, sem sombra de dúvida, que seu irmão caçula, Werner, estava caído de lado e morto. (página 24) Calma aí! Começaremos tudo de novo. Liesel viajava de trem com sua mãe comunista e seu irmão mais novo. Fazia frio. Muito. E nevava lá fora. Enquanto todos (incluindo sua própria mãe) se entregavam ao cansaço de uma viagem de trem, ou mesmo à distração, Liesel vê seu irmão morrer. Assim, de uma hora para outra. Interrompe-se a viagem. Sua mãe e ela enterram o menino no meio do caminho. Liesel, atordoada pelos últimos acontecimentos, ‘pega’ o livro “O Manual do Coveiro” que um rapaz que enterrou seu próprio irmão deixou cair na neve. Seu primeiro roubo. Ela, então, guarda aquele livro de capa preta para si, ainda que não o consiga ler, e segue sua viagem à Munique. Quanto à menina, ela sentira um desejo repentino de lê-lo, que nem sequer tentara entender. Qualquer que fosse a razão, sua ânsia de ler aquele livro era tão intensa quanto qualquer ser humano de dez anos seria capaz de vivenciar. (página 60)
Chegando ao destino, Liesel conhece sua família. Rosa, sua ‘nova’ mãe, de linguagem e gestos agressivos. Uma verdadeira perita em briga e mal humor. Hans, seu novo pai, um pintor de coração generoso que tem grande habilidade em tocar acordeão. Logo conhece, também, Rudy: seu novo vizinho e colega de turma com quem trava uma sincera, fiel e boa amizade. Doido ou não, Rudy sempre esteve destinado a ser o melhor amigo de Liesel. Uma bolada de neve na cara é, com certeza, o começo perfeito de uma amizade duradoura. (página 47) As primeiras noites de Liesel em sua ‘nova’ vida são difíceis: regadas a pesadelos, todas as noites. Desconsolada pela morte do irmão e pelo abandono da mãe biológica, simplesmente não entendia porque precisava de uma nova família. Se sua mãe a amava, por que deixá-la na porta de outra pessoa? Por quê? Por quê? (página 32) Com muito carinho e dedicação, Hans Hubermann (agora, seu pai), passa a consolá-la durante a madrugada, e ensina Liesel a ler e a escrever. “O Manual do Coveiro” é o primeiro de muitos livros que a garota terá como companhia durante o difícil período da Alemanha nazista, época em que o choque de culturas e o governo imposto geraram tanta confusão (também) na mente das crianças.
Outros personagens também se tornam peças chave na vida de Liesel. Em sua rua, a garota trava amizade com outras crianças, com quem passa a jogar bola como distração nos fins de tarde. De modo geral, era uma rua cheia de gente relativamente pobre, a despeito da visível ascensão da economia alemã no governo de Hitler. Ainda existiam áreas pobres na cidade. (página 45) Também tem uma relação curiosa com a mulher do prefeito da cidade, que a leva para conhecer a biblioteca de sua (impressionante) casa, onde Liesel passa bons tempos lendo livros emprestados de Ilsa Hermann (a mulher do prefeito). Mais adiante, a garota ainda passa a dividir seu lar com outra pessoa que a aproximará do ‘mundo das palavras’: Max, um judeu que a família acaba acolhendo, em segredo, em virtude de uma importante amizade entre Hans (o pai de Liesel) e o pai de Max.
‘A menina que roubava livros’ é narrada pela Morte, a partir de seus três encontros com Liesel. Isso mesmo! Passados três encontros e, saindo viva de todos eles (entre os anos de 1939 e 1943), Liesel torna-se protagonista de uma história contada pela morte. Em escrita às vezes sarcástica e bem descritiva, a Morte percorre a trajetória da jovem durante a Segunda Guerra, contando, também, a sua própria relação com o período de guerras e as tantas almas que, diariamente, ela (a Morte!) levava. Por favor, confie em mim. Decididamente, eu sei ser animada, sei ser amável. Agradável. Afável. E esses são apenas os As. Só não me peça para ser simpática. Simpatia não tem nada a ver comigo. (página 9) A escolha do autor por essa narradora – morte – foi, sem dúvida, um tanto macabra, mas muito criativa e diferente, dando um tom extremamente original à narrativa.
Demorei cinco minutos e duas páginas para gostar muito de ‘A menina que roubava livros’. Logo no começo e, mais adiante na história, a narradora (e Liesel) descrevem o céu em cores e nuances e… Eu escrevo e observo muito o céu (rolou aquela super identificação♥). O livro todo é dividido em dez partes e, cada uma delas, compostas por capítulos curtos com subdivisões, observações e notas da própria narradora que permitem que a leitura flua bem! ‘A menina que roubava livros’ nos coloca em reflexões, realidades e sentimentos diversos que vão além da Alemanha nazista: exploram a interação e o choque de culturas e ideias, a luta pela sobrevivência (física e ideológica), superações e o universo das palavras (sejam elas lidas ou escritas) como refúgio, esperança e arte: para os outros, e para a própria alma. Odiei as palavras e as amei, e espero tê-las usado direito. (página 459)
Como você lida com o sofrimento? Vocês já leram este livro ou assistiram ao filme?
Livros por toda parte! Cada parede era provida de estantes apinhadas, mas imaculadas. Mal se conseguia ver a tinta. Havia toda sorte de estilos e letras diferentes nas lombadas dos livros, pretos, vermelhos, cinzentos, de toda cor. Era uma das coisas mais lindas que Liesel Meminger já tinha visto. (Markus Zusak, trecho do livro ‘A menina que roubava livros’, página 123)