Ilustração de Valfré
14 de fevereiro de 2013
Tão bom quanto viajar é chegar a casa. Tinha certeza. Apesar de amar viagens e seguir à risca como manda o figurino: mapas, pesquisas, fotos e souvenires, sabia que amava chegar ao conforto do lar. ‘Ah, meu quarto. Continua o mesmo’, pensava, sempre que o via após dias ausente. No fundo sabia que, aquele cantinho, entre livros e sapatos espalhados, era o seu refúgio. 
Sabia que ali era seu terapeuta, sua balada e seu spa. Tantas vezes quieto, sem música alguma, parecia gritar ideias loucas e absurdas. O tempo todo. Ninguém ouvia, só ela. No fundo, achava bem divertido. Era ali que passava a maior parte do tempo pensando na vida. Em cada canto, uma parte dela. Tão dela e só dela, que não o conseguia ver de outra forma. Era seu próprio retrato.
Deixar seu quarto para embarcar numa viagem rápida, demorada, inesperada ou planejada era uma atividade sofrida. Daquelas que a gente bate o pé e fica com o coração apertado, quase sem ar. Mas amava viajar. Mesmo assim, não evitava a despedida: ao fechar a porta do quarto por uns dias — quem sabe meses — desejava, em pensamento, ‘fique bem, esteja aí quando eu voltar. Do mesmo jeito, com a mesma energia’.
Uma vez, ouviu que ‘sua casa é onde seu coração está’. Até chegou a costurar a frase, em inglês, numa fronha de almofada em uma das aulas durante seu intercâmbio. Também costurou um coração dividido com a bandeira Americana e Brasileira, para completar o pensamento. Quando ficou pronta, levou-a para casa, com satisfação, e vestiu-a em uma das várias almofadas em sua cama. Nos dias mais difíceis, abraçava-a com força em seu quarto temporário. E repetia para si mesma: ‘sua casa é onde seu coração está’. Queria acreditar.
Mas onde seu coração estava? Naquele lago tão bonito, em Fort Wayne, que visitara em sua última estada nos Estados Unidos? Nas piscinas de águas quentes naturais que estavam ali, tão perto, no interior de São Paulo? Naquela igreja tão pequena, mas também tão acolhedora de uma cidadezinha Americana? Na boa e velha cama tão macia, que aguentava tantas noites difíceis enxugando choro, e também tantos sonhos lindos? Naquele vasto e imenso azul límpido do mar da Flórida? 
Não sabia ao certo. Talvez, seu coração estava na lembrança de cada sorriso ou satisfação que cada lugar proporcionava. Em sua quietude, liberdade, acolhimento, todos eram um refúgio e um alívio. Ao seu modo. 
Tinha apenas uma certeza: era bom chegar em casa. Por mais que fotos, sensações e saudades lhe viessem à mente. Por mais que a vontade de fuga e o sonho de conhecer o mundo ainda lhe martelavam a cabeça, era bom estar ali. Definitivamente. 
Onde o movimento dos carros da avenida próxima do seu endereço cortava o silêncio da rua. Onde os pássaros voavam e fugiam do seu cachorro, que agora latia e corria pela casa. Onde seu quarto gritava em melodia aos seus pensamentos. Onde a pipoca estourava junto à alegria do irmão mais novo numa tarde de domingo. Onde o vento batia suave e dançava com as cortinas listradas de seu quarto. Onde seu coração estava, e ali para sempre permaneceria.