Já tinha gostado mais daquela estação. Mas mudou, feito ela. Feito sua ex-estação preferida. Feito as folhas caídas. Ela mudava embora não se dava conta ou tampouco quisesse – porque era teimosa. Mas o outono veio – ele sempre vem – e ela não pôde deixar de mudar. Vai ver o outono era mais teimoso que ela.

 

Waffle quente com mel, café sem açúcar mas não muito forte, trabalho na cabeça, hábito recente de criticar os dias frios, saudade do mar – não de qualquer um, e das pessoas que estão fora do país, e de outras que partiram, vontade de planejar uma fuga temporária, e deixar de comprar coisas sem necessidade.

O outono trazia à tona todos os exageros do verão, e ela fazia questão de lembrá-los, um a um. Saudade daquele momento em que não pensou em mais nada, vontade de repetir aquele abraço e de nunca ter recusado a pizza. Desejo de ter se explicado melhor, ou partido com menos pressa.

Aquele verão. Ela começou a gostar mais dele no último verão. Gastou longas horas no sol, pensando em quase nada que não fosse aquele momento. E riu das escolhas que nunca pensava fazer. Ou dos impulsos. E das risadas longas. Do grupo. Dos shows. Do tumulto. Do sal e suor.

Ela gostava daquele verão porque lembrava do cachorro quente na calçada, do cropped emprestado da amiga, do velho biquíni preto, do bronzeamento artificial, dos cariocas na ilha da magia, das noites de axé, das mensagens que nunca terminavam, do suco de açaí, dos rostos que se repetiam, das tardes que se demoravam, do escuro que virava manhã e ela ainda estava na rua. Das noites que foi dormir sem noção de horas. Com alguma música grudenta na cabeça. E umas ideias novas.

Ela nunca mais seria a mesma depois daquele verão, e não gostava de ter que deixá-lo partir, porque sabia que algumas coisas iam junto dele. E ela seria mais séria, fria, e organizada. E sozinha. Porque era assim que o outono funcionava para ela… Ainda mais depois daquele verão. E ela jamais teria trocado o vento pelo mar, se tivesse escolha.

Só que ela não tinha, e ele sempre vinha. E ele veio. O outono. E embora ela não quisesse, já mudara. Ela sempre mudava. Mudava junto com as folhas, ou com o vento, sei lá. Ela mudava, e mudou.

Ela sentia falta das coisas do verão, e desejou ser tão surpreendida quanto na estação anterior. E por enquanto colecionava só cafés, e-mails e conversas pesadas. Desabafos. Choros entalados. E alguns waffles com mel e bebida quente sem açúcar.

Mas era só o começo e ela jamais podia imaginar o que viria junto daqueles ventos. Guardava amor enorme ao mar, antes às folhas secas.

Mas vai saber o que vem depois.

E vai saber quantas folhas serão necessárias cair para que o outono a (re)molde.

Vai saber se encontrará algumas lembranças do verão ou às enterrará para sempre na praia do seu passado.

Vai saber.

… E vai ver, ela não pode tomar café. Ela pensa demais (em qualquer estação).

Que tipo de memória ou pensamento o outono te trás?